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As “pragas” do Facebook

Artigo de Sandipan Deb, analista do Mint, debate sobre bots e o formato de anúncios que complicam os problemas da rede

 

Por Sandipan Deb
Analista do Mint, parceiro indiano do The Wall Street Journal 

A trajetória entre o maior IPO do ano até o maior fiasco da Nasdaq foi curta e rápida. Em maio, quando o Facebook abriu o capital, sua ação unitária valia US$ 38. Nesta quarta-feira, 8, fechou a US$ 20,75. Isto significa uma perda de US$ 50 bilhões em três meses – o valor de mercado da Microsoft e da Yahoo combinadas. Mas o pior ainda está por vir.

Neste momento, cerca de 420 milhões de ações da rede social circulam no mercado. Mas nos próximos quatro meses, a partir da próxima quarta-feira 15, serão liberadas para venda mais de 2 bilhões de ações dos empregados da empresa que estavam bloqueadas. É justo supor que muitas dessas pessoas irão querer vendê-las, inundando o mercado com os papéis e pressionando seu preço para baixo.

Enquanto isso, dois fatos embaraçosos vêm à tona. Um deles é que ao menos 83 milhões (8,7%) dos 955 milhões de usuários do Facebook são “falsos”. Isso não surpreende: eu mesmo conheço várias pessoas cujos animais de estimação têm suas próprias páginas na rede, com muitos seguidores. Mas isso não é tão prejudicial. Se você considera a segunda revelação, no entanto, há usuários falsos que podem atingir o Facebook num ponto nevrálgico. No mês passado, Rory Cellan-Jones, jornalista da BBC, abriu uma página para uma empresa chamada VirtualBagel, com uma simples (e absurda) promessa: “Vendemos bagel (um tipo de pão) via internet – você só precisa baixar e curtir.” Então ele pagou US$ 10 por anúncios no Facebook, e definiu sua audiência-alvo: pessoas com menos de 45 anos interessadas em culinária e eletrônicos de consumo, residentes nos EUA, Reino Unido, Rússia, Índia, Egito, Indonésia, Malásia e Filipinas. Em 24 horas, ele conseguiu 1,6 mil “likes”.

Quem eram essas pessoas? Na verdade, muitas não eram sequer “pessoas”. Muitos dos “likes” da VirtualBagel na verdade eram gerados por “bots” – programas que desempenham tarefas repetitivas na internet, em geral simulando atividades humanas.

De forma muito simples, um hacker malicioso pode usar sua habilidade para produzir perfis falsos em massa, fazê-los enviar convites a amigos, páginas de “likes”, ou quase qualquer coisa que alguém de carne e osso faria. Pesquisas de empresas de segurança também confirmam esse fenômeno. E ninguém sabe em que medida as respostas aos anúncios do Facebook vêm de bots. Isso é péssima notícia para uma empresa cuja receita depende quase que inteiramente de publicidade, com um modelo baseado em custo por clique das respostas. Bots que criam spams de “likes” subvertem seriamente o valor do Facebook como meio publicitário. A rede, no entanto, disse que “não tem notado evidências de um problema significativo”.

Mas um problema significativo que ela precisa reconhecer é a ARPU (average revenue per user). Neste momento, o Facebook ganha US$ 1,21 por usuário por trimestre, e parece incapaz de aumentar rapidamente esse valor. Em comparação, o Yahoo, que é da “velha economia” das ações de tecnologia, ganha US$ 2 de ARPU por trimestre. E em 8 de agosto sua ação fechou a US$ 16,22 (US$ 4,53 abaixo do Facebook), e seu valor de mercado é de US$ 19,78 bilhões (US$ 56% menos do que os US$ 44,26 bilhões do Facebook). Qualquer que seja o premium merecido atualmente pela ação do Facebook, ele se baseia na esperança de que a rede conseguirá aumentar sua receita – isto é, a ARPU – em velocidade recorde nos próximos anos.

A chave para aumentar a ARPU é a plataforma mobile: mais da metade dos usuários atuais do Facebook estão usando smartphones e tablets para acessar o serviço. Mas o Facebook não parece saber como monetizar essa situação. Antes do IPO, a empresa chegou a admitir isso: “Acreditamos que o número de usuários ativos em aparelhos móveis cresceu mais rapidamente do que o número dos anúncios entregues [...] Se a tendência continuar, nosso desempenho financeiro e a capacidade de aumentar a receita serão negativamente afetados.” O problema é que o Facebook depende de display advertising, e as telas da maioria dos mobiles é pequena demais para esse formato. Além disso, pesquisas mostram que os usuários atuais estão menos tolerantes aos anúncios.

Mark Zuckerberg criou a maior atividade de desperdício de tempo de toda a história da humanidade. E quase um bilhão de pessoas aderiu. Agora, ele não sabe o que fazer com elas. Mas essa história não é velha? Não foi o que aconteceu com o boom das pontocom? No auge no frenezi, em 1999, eu entrevistei Vinod Khosla, na época talvez o investidor mais poderoso do mundo, para a revista Outlook. Eu observei que ninguém parecia ter idéia de um modelo de receita para as pontocom. Ele respondeu: “Por que as empresas de hoje precisam ganhar dinheiro para terem valor? Isso é a velha escola do pensamento linear [em oposição ao pensamento complexo]… Valor pode ser obtido de muitas formas. Se eu coletasse todos os diamantes do mundo, eu não teria ‘renda’, mas teria um ‘ativo’ imenso. A minha empresa não valeria nada porque eu não teria renda? Muitas companhias da internet estão reunindo ativos. E precisam ser mensuradas por um conjunto de métricas inteiramente novas.”

O fato é que, 13 anos depois, o mundo continua funcionando sob o “velho pensamento linear”

 

Fonte: http://www.proxxima.com.br/proxxima/redes_sociais/noticia/2012/08/13/Artigo-analisa-as-pragas-do-Facebook.html

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